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O homem médio

DAVID OLIVEIRA DE SOUZA*

Há três semanas foram libertadas as pessoas acusadas de extorquir o padre Júlio Lancellotti. A sentença, proferida pelo juiz Julio Caio Farto Sales, surpreendeu pela inconsistência dos argumentos. O magistrado ignora fatos relevantes, como a conclusão do inquérito policial que reconheceu a ocorrência de extorsão e o pedido de condenação dos réus pelo Ministério Público de São Paulo. O que mais assusta, no entanto, é a falta de análise do contexto em que os fatos se deram e os acusados agiram, pois permite interpretações distorcidas, como a que faz o juiz na sentença ao concluir que não é compreensível que um “homem médio” – no caso o padre Júlio - tenha aceitado uma extorsão por tanto tempo. É curioso o fato de que para o referido juiz, um homem médio jamais aceitaria uma extorsão por longo período, porém de bom grado abriria mão das economias de toda uma vida por razões frívolas.

Não se sabe o que o meritíssimo definiu com o termo “homem médio”, mas tudo indica que referiu-se à média dos homens da sociedade, faltando especificar sob que aspecto trata-se a vítima de um “homem médio”. Econômico, social, moral, educacional, religioso? Poderemos ter um homem médio na educação, mas abaixo da média na dimensão econômica? Ou outro homem médio no porte físico, mas acima da média na dimensão moral? Qualquer que seja a resposta tem-se que todo “homem médio” pode ser vítima de violência e, uma vez o sendo, pode reagir de formas diversas, principalmente se a violência em questão for psicológica.

Segundo o Centro Latino-Americano de Estudos da Violência e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz, a violência psicológica consiste em agressões verbais ou gestuais com o objetivo de aterrorizar, rejeitar, humilhar a pessoa, restringir sua liberdade ou ainda isolá-la do convívio social. Tem efeito sobre a auto-estima e a autoconfiança. É uma modalidade de violência pouco reconhecida e notificada. No entanto, está na base de problemas de saúde como transtornos de ansiedade e depressão. O processo mostra que padre Júlio foi vítima de violência psicológica contínua. O mesmo tipo de violência sofrida pelos moradores do imóvel irregularmente ocupado na zona leste de São Paulo para onde os réus foram pouco depois de sua libertação, exigindo de forma violenta, segundo relatos das vítimas, o pagamento dos aluguéis que recebiam ilegalmente antes de serem presos.

É fato conhecido que a violência psicológica pode perpetuar-se por longos períodos, principalmente se houver vínculo familiar entre o algoz e sua vítima. São comuns abusos psicológicos de pais contra filhos, de filhos contra pais ou entre empregadores e empregados. O vínculo deixa muitas vezes a vítima aprisionada num conflito mental em que espera, sem sucesso, a mudança de atitude de seu agressor, o qual, por sua vez, alimenta essa esperança com interregnos menos agressivos, até voltar a ser violento. No caso específico de Júlio Lancellotti, somam-se outras dimensões à cena, que justificam o fato de a denúncia formal ter ocorrido apenas três anos após o início da extorsão (a informal fora feita dois anos antes, ao governador, ao secretário-adjunto de Segurança e ao comandante da PM): a dimensão religiosa, que fortalecia a crença na possibilidade de mudança de atitude do agressor; a dimensão histórica, do cidadão que dedicou anos de sua vida à defesa de uma atitude sociedade menos punitiva e mais cuidadora da sociedade diante dos jovens infratores, fazendo com que a condenação do réu representasse simbolicamente a derrota de sua causa; a dimensão biológica, que fez com que reagisse de forma depressiva às ameaças perpetradas contra sua vida. Nenhuma dessas dimensões pode ser ignorada e,se acrescidas dos fatos evidenciados no processo, não deixam dúvidas de que Júlio Lancellotti foi vítima de extorsão continuada.

Um elemento final e muito destacado é o fato de padre Júlio não ter até o momento se pronunciado publicamente em defesa própria, sendo que tantas vezes o fez em favor dos excluídos. O silêncio do padre reproduz a atitude histórica de muitos religiosos em momentos de dificuldade e remonta até o referencial maior dos cristãos, a própria figura de Jesus, a quem Pilatos perguntou insistentemente: “Nada respondes? Vê quantas coisas testificam contra ti?”.  E Jesus nada respondeu.

DAVID OLIVEIRA DE SOUZA, 32, é médico pessoal do padre Júlio Lancellotti, professor de saúde coletiva da Universidade Federal de Sergipe e trabalha para a Organização Médicos Sem Fronteiras. É especialista em medicina de família e comunidade pela UERJ, especialista em clínica médica pela UFRJ e mestre em relações internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris.


Comentário

De fato o Padre Júlio foi coerente. Tentou solucionar a situação anteriormente apresentada segundo tudo que aprendeu, sobretudo as orientações de Dom Luciano. Nossa comunidade sempre acompanhou essa coerência e o apoiou. Suas iniciativas voltadas aos excluídos o notabilizaram, mas incomodaram aqueles que excluem.

Dom Luciano também não tinha um comportamento comum, que é atribuído ao homem médio. Se recebesse uma roupa de presente e logo avistasse um morador de rua, lá se ia o presente. Lembro do comentário de um episódio em que um carro das freiras estava pegando fogo e a preocupação maior de Dom Luciano era com um par de tênis que estava no porta-malas, que ele tinha prometido para um morador de rua. Não era um homem médio, mas uma figura das mais importantes do País e, sobretudo, humano.

O Padre Júlio coloca-se com muita humanidade. Jesus se fez humano e até experimentou as fragilidades, mas veio também para ensinar que sempre deve prevalecer o amor ao próximo. Amor que não existe sem perdão. O Padre Júlio tentou a conversão daqueles que o extorquiam.

Não se pode afastar a condição diferenciada do Padre Júlio, mais especificamente por ele se portar de maneira mais humana. Olha pelo mais necessitado. Não se vislumbram mais necessitados do que aqueles que são doentes, os idosos, os moradores de rua e até os menores infratores. Fica fácil comparar a vida de quem possui uma boa casa, um automóvel, um bom emprego, viagens, luxos, enquanto aqueles estão privados disso e buscam um mínimo, que é viver.

O doente busca a saúde, o idoso também a saúde mas também a atenção dos mais novos (são muito abandonados), os moradores de rua querem uma casa, uma companhia, um emprego, um sonho, na medida em que a rua é só violência, dificuldade, abandono. Os menores infratores certamente iriam preferir um emprego, uma faculdade, roupas, família, uma mesa farta e sobretudo o carinho e o amor de uma família. A nossa atual sociedade, ao contrário, estabelece essas coisas apenas para poucos.

Carlos Alberto Beatriz
Comunidade São Miguel Arcanjo


Ministério Público recorre contra absolvição dos acusados de extorquir o Padre Júlio

O Ministério Público de São Paulo protocolou nesta segunda-feira, 16/06, recurso contra a sentença que absolveu os quatro acusados de extorquir o padre Júlio Lancellotti.

Apesar do juiz considerar que as provas foram insuficientes, os promotores designados para o caso, Fábio José Bueno e Luiz Antonio de Oliveira Nusdeo, sustentam no recurso que existem provas suficientes nos autos de que os acusados praticaram reiteradamente crime de extorsão contra o padre.


Acusados de extorsão podem voltar para a prisão

Menos de 24 horas depois de sair da cadeia, os acusados de extorquir o padre Júlio Lancellotti já se envolveram em nova denúncia de extorsão. Os moradores de uma pensão da rua Catumbi, na zona leste de São Paulo, onde Anderson Batista e a mulher, Conceição Eletério, cobravam aluguéis antes de ser presos fizeram boletim de ocorrência na quarta-feira, dia 11, denunciando que os dois tinham ido ao local e, de maneira até violenta, cobrado supostos aluguéis referentes ao período em que estiveram presos.

De acordo com notícias publicadas em “O Estado de S. Paulo”, “Diário de S. Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Agora” e “Jornal da Tarde” da quinta, dia 12, Anderson e Conceição foram na manhã do dia 11 à pensão na qual costumavam cobrar aluguel dos moradores antes de serem presos. Os relatos dos moradores foram de que os dois entraram de maneira violenta na pensão, chutando a porta da casa de uma senhora de 70 anos e ameaçando com despejo –e até de morte- quem não pagasse.

Os dois sempre se disseram autorizados pelo dono da pensão a cobrar os aluguéis. Contudo os jornais informam que o imóvel pertence a Mordcha Czerkes e sua mulher, Fanny Janowski Czerkes, que ajuizaram pedido de reintegração de posse em outubro –documento levado pelos moradores à delegacia para justificar por que não pagavam mais a Anderson e Conceição os valores de R$ 150 a R$ 200 mensais por eles exigidos.

O próprio delegado André Pimentel fala nas reportagens que, como o imóvel não pertence a Anderson e Conceição, a cobrança de aluguel indevido a eles caracteriza um tipo de extorsão. Nem repórteres nem policiais conseguiram falar com Anderson e Conceição na quarta-feira.


Nota oficial do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh após a absolvição dos reús

Fomos surpreendidos pela decisão do Juízo Criminal de Primeira Instância - 31ª Vara Criminal, que absolveu os quatro acusados de extorsão contra o Pe. Júlio Lancellotti.

Aguardamos que o Ministério Público, titular da ação penal e responsável pela acusação, recorra da decisão ao Tribunal de Justiça, uma vez que nossa atuação no caso, como advogados do padre, é de assistência da acusação.

Confiamos que a decisão será reformada pelo Tribunal de Justiça, já que o inquérito policial que investigou o caso concluiu que os acusados praticaram extorsão contra Júlio Lancellotti. E o Ministério Público de São Paulo também considerou que o Pe. Júlio foi vítima de uma quadrilha e, após as provas produzidas no decorrer do processo judicial, pediu a condenação dos acusados por extorsão e formação de quadrilha.

Mais do que isso, os acusados tiveram a prisão preventiva decretada no curso das investigações e viram negados todos os pedidos de liberadade feitos ao Poder Judiciário.

No momento, nossa preocupação é com a segurança de Júlio Lancellotti, tendo em vista que os acusados, presos até hoje, por força de sentença serão colocados em liberdade.


Algumas mensagens recebidas pelo site

Pe. Júlio,

Mesmo de longe aqui em Fortaleza, mantive sempre em oração para que tudo terminasse logo, para acabar com essa injustiça que aconteceu na sua vida. Mas acredito que Deus não esquece de seus filhos. Pois sua missão é digna e verdadeira. Fico aqui em oração pela a sua saúde e torcendo pela sua caminhada espiritual. Nós confiamos no seu trabalho.

Abraços,
Cecília
Fortaleza - Ceará


Revmo. Monsenhor Lancelotti,

Eu repito: o senhor, as religiosas da Toca de Assis e o Mons. Valentini são para mim o Rosto do Senhor Jesus. Seria tão bom que aqueles que lhe perseguem e conseqüentemente perseguem covardemente os mais pequeninos, prediletos do Senhor Jesus, viessem à Paróquia São Miguel e vissem que nesta paróquia o Coração de Jesus faz Sua morada.

Miryam de Moraes

 
Pe Júlio,

Parece ontem que o sr. estava num departamento da Secretaria de Estado do Bem Estar Social, na Rua Bela Cintra, onde nasceu a FEBEM e o sr. lutava para que se criasse uma entidade que desse condições de reabilitação dos jovens para lá levados, lembro-me bem de um governo democrático recém eleito que era a aspiração de todos nós, o Governo Montoro, que reunia vários órgãos com o intuito de discutir com o senhor essa situação, desde então o bem estar da comunidade e das minorias desvalidas eram sua preocupação e ação.

Com as bençãos de Dom Luciano e do Cardeal Arns, o senhor se tornou pastor da igreja católica, tornou-se um pregador como poucos, nos ensinando sempre que a oração sem ação ou obras de nada ou pouco adianta para nosso investimento na Vida depois da morte. Ladeando o altar-mor da igreja de São Miguel Arcanjo duas placas que definem a vocação do sr., Pe . Júlio, "Aqui se entra para Amar Deus"; "Daqui se sai para Amar o Próximo". Criou a duras penas, lutando contra o preconceito, a Casa Vida; tornou-se Vigário do Povo de Rua.

Padre Júlio, não desista jamais de continuar sua luta contra as injustiças deste nossa cidade e País, continue a denunciar para que possamos ajudá-lo a repassar essa denúncias a fim de que o povo e as autoridades tomem conciência, continue a Celebrar a Eucaristia com essa piedade que lhe é peculiar e poucos sacerdotes transmitem isso à comunidade. Não será um Juiz de Direito, que julga com duas medidas, uma vez que não quis atender o pedido do advogado de defesa de libertar seus clientes; e de repente julga como se os acusados fossem inocentes e nada cometeram. Não serão esses jovens que o sr. com certeza, procurou ajudá-los a terem mais caráter; que irão apagar essa sua história de puro amor a Deus e ao próximo.

Força Pe. Júlio!

Um abraço,
Rosaria


    “Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
     Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
     Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
     Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.”
     Bertold Brecht

Não é tarefa trivial alinhavar algumas linhas que possam descrever alguns momentos que presenciei,  vividos e sofridos por este à quem tenho um grande apreço, Padre Julio Lancellotti, mas não me furtarei de tal tentativa de escolher entre muitos momentos um de certa forma muito especial.

Devo confessar que não tenho ultimamente muito contato com o Padre Julio, pois resido fora da Capital Paulista, porém acompanhei sua angustia recente, através de relatos transmitidos por pessoas próximas ao Padre Julio. Fiquei muito consternado com a truculência com que trataram o Padre Julio, uma pessoa, repito, por quem aprendi a ter apreço e admiração.

Para a mídia e a grande massa passam despercebidos fatos classificados como corriqueiros ou menores, eu particularmente tenho registrado em minha memória e experiência de vida alguns breves momentos, e peço a permissão ao Júlio de poder relatar um destes.

Eu conheci algumas das crianças da Casa Vida, muitas delas adotadas pelo Padre Julio. Uma delas a Mislane, ou como algumas vezes eu vi o Julio chamando-a, minha Princesinha Etíope, com uma ternura presente nos olhos de ambos e um amor puro e incondicional que certamente causaria inveja a qualquer filho(a) ou pai. Mislane já nascera portando o HIV, e próximo ao seu nono aniversário sua condição era bastante delicada. Em um dos seus últimos desejos ela a Princesa Etíope, pediu ao seu pai o Julio uma festa de aniversário. Eu tive o privilegio de participar desta festa, sem pompas, uma festa que a maioria dos pais realizam para seus filhos, porem sem dúvida a mais diferente de todas que eu já vi. A Mislane mal andava, com seus quase nove anos sua fragilidade era tanta que nem mesmo podíamos abraçá-la pelos seus nove aninhos, até sentar-se era para ela uma penúria, porem nos braços de seu Pai a dor parecia render-se ao amor e o carinho do mesmo por ela. Recordo-me ainda que procurei muito por um presente especial para ela, do jeito que uma princesinha merece, encontrei uma caixinha de música simples, mas que de alguma forma me lembrava sua ternura, mesmo em meio a tanta dor. Muito tempo depois me contaram que aquela caixinha de musica ficava na cabeceira de sua cama, e ela pedia sempre que seu pai desse corda para que ela pudesse ouvir mais uma vez, e até o último momento ele não saiu de lá. Muitos passaram para a historia através de feitos notáveis e heróicos, mas em nenhum vi o que vi nesta Princesa e no seu Pai. Qualquer pai teria sucumbido depois que ela nos deixou, mas não o Julio, você é imprescindível Padre Julio.

Um Grande e fraterno abraço,
Audemir Loris

 

Site recebe selo “Direitos Nota 10”

Site premiado Direitos Nota 10

A DHNet – Rede Direitos Humanos e Cultura – concedeu ao site www.padrejulio.com.br o Selo Direitos Nota 10, “por sua performance de qualidade, conteúdo e apresentação visual desenvolvendo o tema Direitos Humanos e cidadania em língua portuguesa”.

A rede afirma que o prêmio é uma forma de difundir sítios/sites que possam contribuir na discussão, divulgação e valorização de questões ligadas a Direitos Humanos e Humaismo  nos espaços virtuais.

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em novembro de 2007